quinta-feira, 22 de julho de 2010

chan

ontem um carro bateu num poste na rua que dá pra janela da cozinha. de verdade, mas ninguém se machucou. eu vi...
hoje alguém digitou a palavra "pai" no computador, enquanto eu fazia uma busca por videos triviais, sozinho aqui no apartamento. não fui eu, mas também não fiquei assustado. ainda sinto medo, mas já não me assusto. só não sei quem foi. se alguém souber...
nunca estive tão feliz na vida, nem tão certo, nem tão despregado e presente e forte e ciente. acho que isso é só porque entreguei meu leme a quem é de direito. nunca soube dirigir.
assim não bato em postes, assim não me asssusto, assim sigo certo.

amo tudo o que há.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

amigos

Posso dizer que amo você? Que não antevejo nas palavras uma só curva que ponha às claras essas flores, meu peito seu jardim? Nem consigo pensar numa só pessoa a quem me dirija, sob essas águas sem margens, o ressoar de nosso pulso entre algas. Alguém aqui diz algo e todas as formas com alegria dançam, longamente, sem fim. Passaram por aqui os olhos de meus amigos, dos que feri, de meus pais e filhos. E há por eles tanto amor.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Um

Às vezes acordo e percebo o que julgo ser quem sou, o que julgo ser o que faço, o que julgo ser o que vejo... E aí ocorre que esse que acredita julgar qualquer coisa está na verdade em silêncio, um silêncio eterno e que permeia tudo. E surgem essas imagens de flores, de pessoas que passam, de páginas amarrotadas, impressões e lembranças, essas imagens e sons e texturas, todos esses nomes que aparentam conter qualquer coisa. Mas não. Apenas é, tudo o que é, apenas um, eterno, indivisível, perfeito, inconcebível, incompreensível, inexprimível, inominável, sem arestas. Comumente apanho essa pequena porção de mim, essa parte que se acredita retirada do todo, envolta em tolices e desejos, pequenas vontades, esses passatempos que a grande parte das pessoas chama de vida... Mas está claro que a vida não tem nada a ver com isso, que a vida é o que somos, sem distrações, a atenção plena dos devotos budistas, que rebrilha na lacuna entre os pensamentos, no exato instante de fôlego que antecede a inspiração... É esse êxtase, esse vazio prenhe de tudo o que há, essa morte, este abrir de olhos sem sustos.

Ar

Inexprimível, a boca escancarada para ambos os lados, direito e esquerdo, pelas mãos que há muito conhecia, porém, sem tantas penas e esporas. Uma das unhas rasgou-lhe a gengiva, próximo a um pré-molar, putrefato, putrefato. Havia algo delicado naquele impulso, os tubos do pescoço, canudos de refresco de frutas vermelhas, algo de suave no modo como os olhos não se esforçavam mais em reconhecer os móveis dispostos ao redor. Aquela criatura não demonstrava o mínimo sinal de fadiga.
Acomodou as patas nos quadris do rapaz, unhas fustigando a carne sobre a calça. Tão só, apesar de tudo. Com a boca já rasgando, pôde sentir a barriga emplumada sobre o dorso, branca. Por alguma razão, parecia procurar algo na garganta, o bico talvez, visto que não possuía um. Sobre o fogão, na copa, endurecia um ovo frito. O ar é implacável com os alimentos, o ar é implacável com absolutamente tudo.
Mas, de súbito, pareceu que não era um bico o que procurava. A criatura forçou ainda mais os pés nos quadris do jovem, olhando-o nos olhos, porém, sem amor. A cloaca avermelhada, violência recente. Era um ser rude; no entanto, não rancoroso. Isso não se podia dizer. Reuniu sob as plumas toda a humanidade que restava e, com as feições transfiguradas de um gênio, um hiato, um iluminado, fez emergir da garganta do jovem, com um grito, o ovo. Morreram ambos, após os últimos gemidos, sem palavras inúteis. O ar é implacável com absolutamente tudo.

Um pouco de carne

Escrevemos nossas linhas a partir da coluna vertebral, de dentro para fora, constituindo transversalmente órgãos e tecidos.
O pensamento é falta de tinta;
o amor, o espaço em que ela se faz desnecessária.

Sem palavras

Era mulher, alguns diziam, belíssima. As circunstâncias de sua chegada ao local do encontro, marcado à véspera, exigem pormenorizada explicação. À entrada dela no café, escorregou a lua no telhado, invejosa. Serpenteou a moça por entre as mesas com desdém quase despercebido. No alto, o coque do qual poucas mechas castanho-claro escorriam. Era fina, compacta. Todos os que por ali estavam, mesmo os que aparentemente não a haviam percebido, repararam na pequena beleza que na última mesa se acomodou. Sorriu.
Ele, por sua vez, respondendo da porta à amabilidade daquela criatura que tão longamente o olhava ― como só o fazem os que possuem presentes amontoados em alguma aresta nos porões do peito ―, como se percebesse os demais fregueses como obliteradas figuras, assentiu com os olhos e mandou-lhe um beijo. As mãos da moça repousando sobre a toalha xadrez da mesa, entre pãezinhos, cremes de vários sabores e talheres, raspando com a unha do dedo médio a borda do prato. Aos passos dele pesava a respiração, mais e mais. Batia rapidamente com a ponta do sapato no chão, estrondos audíveis só para ela.
Reluzindo, os joelhos rangiam, o espírito tomado, febril e feliz. Tocou finalmente a cadeira posta ao lado da moça. No canto oposto do café, três amplas janelas circulares, além de serem responsáveis por toda a claridade do lugar, acolhiam vasos de lírios e copos-de-leite. Roubavam os palitos do balcão, desenxabidamente, duas crianças sem café-da-manhã e sem parentes próximos. A senhora canhota, por fim, impacientou-se e negou o pedido de casamento, o que não inspira piedade em ninguém, visto que o noivo é um calhorda e guarda, na terceira gaveta do armário da cozinha, entre as taças de sobremesa, fotografias de todas as mulheres que conheceu no período em que teve máquina fotográfica. Ácaros haviam acampado há algumas horas nas rugas do senhor da mesa três, sempre tão risonho. Alheios a tudo isso, o rapaz e moça sentados frente a frente.
Findo todo o ruído, puseram-se a emergir no denso momento que antecede a primeira frase. Esperavam, um do outro, por aquele som articulado que define as sensações, que se embrenha nas meadas do espírito ― o mais escuro ―, que tem os pés banhados em ácido gástrico, que faz doer o pescoço e que os domava como a dois cães: esperavam pela extrema-unção que os redimiria do pecado do silêncio. Ela, amparada pela vertigem, enfim falou:
― Tenho algo a dizer...
Absorto, o rapaz regurgitou para si mesmo:
― Ela falou... É apenas humana ― e voltou-se, cavado de tristeza, para os lírios e copos-de-leite.

Sobre o adjetivo

Digo-lhes que se trata, sem dúvida, de um trabalho. Dedico anos da minha vida quase que exclusivamente a isso. Sei que não é ainda tanto tempo assim, mas estilo se obtém com o desgaste do lápis: sou escritor. Precipito-me a lhes informar que devo muito de minha carreira à mamãe; que Deus a tenha. Foi minha progenitora professora no interior do estado onde nasci e não me criei. Com ela, aprendi a respeitar a gramática, percebi que a língua é o documento de identificação de um povo, descobri a metáfora, a sutileza e a catacrese. Mamãe me salvou.
Foi com ela também que tomei conhecimento da regra de ouro da escrita, algo que jamais esqueci e que pretendo, com este texto, demonstrar e transmitir às gerações vindouras ― porque creio no sentimento de postumidade. Eis a regra: entre as preocupações com a coesão e a coerência, freqüentemente negligenciamos um detalhe, que funciona como uma espécie de garantia de fluência para o texto: a supressão dos adjetivos. Penso que meus leitores podem não ter compreendido, a princípio, o que estou falando. Eu explico. Primeiramente, preciso afirmar a seriedade e aplicabilidade da idéia. Todos os prêmios que já conquistei se devem, ao meu ver, à adoção desta prática: nenhum dos meus doze livros conta com adjetivos. A razão é esta: o adjetivo, observem, elimina o deleite da descrição, desfavorece o desenvolvimento da sensibilidade, atrofia a expressão e a imaginação, além de ser um atestado da manipulação de discurso.
Conheço pessoas que conquistaram fama à minha custa, valendo-se desta idéia que, como amigo, havia lhes segredado. Por sorte, não se percebe em mim sequer vestígio de egoísmo ou rancor. Desejo a todos muito sucesso. Porém, contorcem-me as tripas os escarnecedores que, rindo-se de minha austeridade qual macacos, dizem que demonstro radicalismo com relação ao tema do adjetivo. Radicalismo?! Ora, vejam! Apenas defendo meu ponto de vista de modo a expor claramente as razões que me levaram a adotar o método de mamãe. Não se trata de radicalismo e o provo: faço até concessão ao uso de locuções.
Aposto que parte desse preconceito deve-se a uma entrevista que concedi recentemente. Disse ao jornalista ― que teve a ousadia de defender aquela classe de palavras! ― que se, um dia, cometesse a loucura de, mesmo por engano, expressar-me através de um adjetivo, matar-me-ia pulando da janela de meu escritório. Inicialmente, ele achou graça; porém, ao ver que eu não estava saracoteando, pareceu se espantar e, por fim, indignar-se. Foi-se embora. Pois digo e repito: não se trata de exagero. Sigo o que acredito e não temo de modo algum a morte. Ouçam-me, pois sou fidelíssimo a meus