Era mulher, alguns diziam, belíssima. As circunstâncias de sua chegada ao local do encontro, marcado à véspera, exigem pormenorizada explicação. À entrada dela no café, escorregou a lua no telhado, invejosa. Serpenteou a moça por entre as mesas com desdém quase despercebido. No alto, o coque do qual poucas mechas castanho-claro escorriam. Era fina, compacta. Todos os que por ali estavam, mesmo os que aparentemente não a haviam percebido, repararam na pequena beleza que na última mesa se acomodou. Sorriu.
Ele, por sua vez, respondendo da porta à amabilidade daquela criatura que tão longamente o olhava ― como só o fazem os que possuem presentes amontoados em alguma aresta nos porões do peito ―, como se percebesse os demais fregueses como obliteradas figuras, assentiu com os olhos e mandou-lhe um beijo. As mãos da moça repousando sobre a toalha xadrez da mesa, entre pãezinhos, cremes de vários sabores e talheres, raspando com a unha do dedo médio a borda do prato. Aos passos dele pesava a respiração, mais e mais. Batia rapidamente com a ponta do sapato no chão, estrondos audíveis só para ela.
Reluzindo, os joelhos rangiam, o espírito tomado, febril e feliz. Tocou finalmente a cadeira posta ao lado da moça. No canto oposto do café, três amplas janelas circulares, além de serem responsáveis por toda a claridade do lugar, acolhiam vasos de lírios e copos-de-leite. Roubavam os palitos do balcão, desenxabidamente, duas crianças sem café-da-manhã e sem parentes próximos. A senhora canhota, por fim, impacientou-se e negou o pedido de casamento, o que não inspira piedade em ninguém, visto que o noivo é um calhorda e guarda, na terceira gaveta do armário da cozinha, entre as taças de sobremesa, fotografias de todas as mulheres que conheceu no período em que teve máquina fotográfica. Ácaros haviam acampado há algumas horas nas rugas do senhor da mesa três, sempre tão risonho. Alheios a tudo isso, o rapaz e moça sentados frente a frente.
Findo todo o ruído, puseram-se a emergir no denso momento que antecede a primeira frase. Esperavam, um do outro, por aquele som articulado que define as sensações, que se embrenha nas meadas do espírito ― o mais escuro ―, que tem os pés banhados em ácido gástrico, que faz doer o pescoço e que os domava como a dois cães: esperavam pela extrema-unção que os redimiria do pecado do silêncio. Ela, amparada pela vertigem, enfim falou:
― Tenho algo a dizer...
Absorto, o rapaz regurgitou para si mesmo:
― Ela falou... É apenas humana ― e voltou-se, cavado de tristeza, para os lírios e copos-de-leite.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
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