sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Ar

Inexprimível, a boca escancarada para ambos os lados, direito e esquerdo, pelas mãos que há muito conhecia, porém, sem tantas penas e esporas. Uma das unhas rasgou-lhe a gengiva, próximo a um pré-molar, putrefato, putrefato. Havia algo delicado naquele impulso, os tubos do pescoço, canudos de refresco de frutas vermelhas, algo de suave no modo como os olhos não se esforçavam mais em reconhecer os móveis dispostos ao redor. Aquela criatura não demonstrava o mínimo sinal de fadiga.
Acomodou as patas nos quadris do rapaz, unhas fustigando a carne sobre a calça. Tão só, apesar de tudo. Com a boca já rasgando, pôde sentir a barriga emplumada sobre o dorso, branca. Por alguma razão, parecia procurar algo na garganta, o bico talvez, visto que não possuía um. Sobre o fogão, na copa, endurecia um ovo frito. O ar é implacável com os alimentos, o ar é implacável com absolutamente tudo.
Mas, de súbito, pareceu que não era um bico o que procurava. A criatura forçou ainda mais os pés nos quadris do jovem, olhando-o nos olhos, porém, sem amor. A cloaca avermelhada, violência recente. Era um ser rude; no entanto, não rancoroso. Isso não se podia dizer. Reuniu sob as plumas toda a humanidade que restava e, com as feições transfiguradas de um gênio, um hiato, um iluminado, fez emergir da garganta do jovem, com um grito, o ovo. Morreram ambos, após os últimos gemidos, sem palavras inúteis. O ar é implacável com absolutamente tudo.

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