sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Um

Às vezes acordo e percebo o que julgo ser quem sou, o que julgo ser o que faço, o que julgo ser o que vejo... E aí ocorre que esse que acredita julgar qualquer coisa está na verdade em silêncio, um silêncio eterno e que permeia tudo. E surgem essas imagens de flores, de pessoas que passam, de páginas amarrotadas, impressões e lembranças, essas imagens e sons e texturas, todos esses nomes que aparentam conter qualquer coisa. Mas não. Apenas é, tudo o que é, apenas um, eterno, indivisível, perfeito, inconcebível, incompreensível, inexprimível, inominável, sem arestas. Comumente apanho essa pequena porção de mim, essa parte que se acredita retirada do todo, envolta em tolices e desejos, pequenas vontades, esses passatempos que a grande parte das pessoas chama de vida... Mas está claro que a vida não tem nada a ver com isso, que a vida é o que somos, sem distrações, a atenção plena dos devotos budistas, que rebrilha na lacuna entre os pensamentos, no exato instante de fôlego que antecede a inspiração... É esse êxtase, esse vazio prenhe de tudo o que há, essa morte, este abrir de olhos sem sustos.

Ar

Inexprimível, a boca escancarada para ambos os lados, direito e esquerdo, pelas mãos que há muito conhecia, porém, sem tantas penas e esporas. Uma das unhas rasgou-lhe a gengiva, próximo a um pré-molar, putrefato, putrefato. Havia algo delicado naquele impulso, os tubos do pescoço, canudos de refresco de frutas vermelhas, algo de suave no modo como os olhos não se esforçavam mais em reconhecer os móveis dispostos ao redor. Aquela criatura não demonstrava o mínimo sinal de fadiga.
Acomodou as patas nos quadris do rapaz, unhas fustigando a carne sobre a calça. Tão só, apesar de tudo. Com a boca já rasgando, pôde sentir a barriga emplumada sobre o dorso, branca. Por alguma razão, parecia procurar algo na garganta, o bico talvez, visto que não possuía um. Sobre o fogão, na copa, endurecia um ovo frito. O ar é implacável com os alimentos, o ar é implacável com absolutamente tudo.
Mas, de súbito, pareceu que não era um bico o que procurava. A criatura forçou ainda mais os pés nos quadris do jovem, olhando-o nos olhos, porém, sem amor. A cloaca avermelhada, violência recente. Era um ser rude; no entanto, não rancoroso. Isso não se podia dizer. Reuniu sob as plumas toda a humanidade que restava e, com as feições transfiguradas de um gênio, um hiato, um iluminado, fez emergir da garganta do jovem, com um grito, o ovo. Morreram ambos, após os últimos gemidos, sem palavras inúteis. O ar é implacável com absolutamente tudo.

Um pouco de carne

Escrevemos nossas linhas a partir da coluna vertebral, de dentro para fora, constituindo transversalmente órgãos e tecidos.
O pensamento é falta de tinta;
o amor, o espaço em que ela se faz desnecessária.

Sem palavras

Era mulher, alguns diziam, belíssima. As circunstâncias de sua chegada ao local do encontro, marcado à véspera, exigem pormenorizada explicação. À entrada dela no café, escorregou a lua no telhado, invejosa. Serpenteou a moça por entre as mesas com desdém quase despercebido. No alto, o coque do qual poucas mechas castanho-claro escorriam. Era fina, compacta. Todos os que por ali estavam, mesmo os que aparentemente não a haviam percebido, repararam na pequena beleza que na última mesa se acomodou. Sorriu.
Ele, por sua vez, respondendo da porta à amabilidade daquela criatura que tão longamente o olhava ― como só o fazem os que possuem presentes amontoados em alguma aresta nos porões do peito ―, como se percebesse os demais fregueses como obliteradas figuras, assentiu com os olhos e mandou-lhe um beijo. As mãos da moça repousando sobre a toalha xadrez da mesa, entre pãezinhos, cremes de vários sabores e talheres, raspando com a unha do dedo médio a borda do prato. Aos passos dele pesava a respiração, mais e mais. Batia rapidamente com a ponta do sapato no chão, estrondos audíveis só para ela.
Reluzindo, os joelhos rangiam, o espírito tomado, febril e feliz. Tocou finalmente a cadeira posta ao lado da moça. No canto oposto do café, três amplas janelas circulares, além de serem responsáveis por toda a claridade do lugar, acolhiam vasos de lírios e copos-de-leite. Roubavam os palitos do balcão, desenxabidamente, duas crianças sem café-da-manhã e sem parentes próximos. A senhora canhota, por fim, impacientou-se e negou o pedido de casamento, o que não inspira piedade em ninguém, visto que o noivo é um calhorda e guarda, na terceira gaveta do armário da cozinha, entre as taças de sobremesa, fotografias de todas as mulheres que conheceu no período em que teve máquina fotográfica. Ácaros haviam acampado há algumas horas nas rugas do senhor da mesa três, sempre tão risonho. Alheios a tudo isso, o rapaz e moça sentados frente a frente.
Findo todo o ruído, puseram-se a emergir no denso momento que antecede a primeira frase. Esperavam, um do outro, por aquele som articulado que define as sensações, que se embrenha nas meadas do espírito ― o mais escuro ―, que tem os pés banhados em ácido gástrico, que faz doer o pescoço e que os domava como a dois cães: esperavam pela extrema-unção que os redimiria do pecado do silêncio. Ela, amparada pela vertigem, enfim falou:
― Tenho algo a dizer...
Absorto, o rapaz regurgitou para si mesmo:
― Ela falou... É apenas humana ― e voltou-se, cavado de tristeza, para os lírios e copos-de-leite.

Sobre o adjetivo

Digo-lhes que se trata, sem dúvida, de um trabalho. Dedico anos da minha vida quase que exclusivamente a isso. Sei que não é ainda tanto tempo assim, mas estilo se obtém com o desgaste do lápis: sou escritor. Precipito-me a lhes informar que devo muito de minha carreira à mamãe; que Deus a tenha. Foi minha progenitora professora no interior do estado onde nasci e não me criei. Com ela, aprendi a respeitar a gramática, percebi que a língua é o documento de identificação de um povo, descobri a metáfora, a sutileza e a catacrese. Mamãe me salvou.
Foi com ela também que tomei conhecimento da regra de ouro da escrita, algo que jamais esqueci e que pretendo, com este texto, demonstrar e transmitir às gerações vindouras ― porque creio no sentimento de postumidade. Eis a regra: entre as preocupações com a coesão e a coerência, freqüentemente negligenciamos um detalhe, que funciona como uma espécie de garantia de fluência para o texto: a supressão dos adjetivos. Penso que meus leitores podem não ter compreendido, a princípio, o que estou falando. Eu explico. Primeiramente, preciso afirmar a seriedade e aplicabilidade da idéia. Todos os prêmios que já conquistei se devem, ao meu ver, à adoção desta prática: nenhum dos meus doze livros conta com adjetivos. A razão é esta: o adjetivo, observem, elimina o deleite da descrição, desfavorece o desenvolvimento da sensibilidade, atrofia a expressão e a imaginação, além de ser um atestado da manipulação de discurso.
Conheço pessoas que conquistaram fama à minha custa, valendo-se desta idéia que, como amigo, havia lhes segredado. Por sorte, não se percebe em mim sequer vestígio de egoísmo ou rancor. Desejo a todos muito sucesso. Porém, contorcem-me as tripas os escarnecedores que, rindo-se de minha austeridade qual macacos, dizem que demonstro radicalismo com relação ao tema do adjetivo. Radicalismo?! Ora, vejam! Apenas defendo meu ponto de vista de modo a expor claramente as razões que me levaram a adotar o método de mamãe. Não se trata de radicalismo e o provo: faço até concessão ao uso de locuções.
Aposto que parte desse preconceito deve-se a uma entrevista que concedi recentemente. Disse ao jornalista ― que teve a ousadia de defender aquela classe de palavras! ― que se, um dia, cometesse a loucura de, mesmo por engano, expressar-me através de um adjetivo, matar-me-ia pulando da janela de meu escritório. Inicialmente, ele achou graça; porém, ao ver que eu não estava saracoteando, pareceu se espantar e, por fim, indignar-se. Foi-se embora. Pois digo e repito: não se trata de exagero. Sigo o que acredito e não temo de modo algum a morte. Ouçam-me, pois sou fidelíssimo a meus

O fruto

Sentaram-se as criaturas sob a sombra muda da pedra. Isso porque, até então, não se havia compreendido e classificado os sons. Olharam-se com curiosidade, pêlos e escamas, vasculhando sem timidez cada recorte da pele e ângulos e cores e cheiros. Acabaram, respeitosamente, amando-se com a visão.
Dois seres conhecedores profundos da violência dos gestos e do olhar. Toda a natureza é consciente da mão tripla dos olhos: uma mão leva a ternura, a retidão, o peso da verdade e o medo; a outra carrega a fúria, as paixões, a tempestade que se anuncia na queda da folha, as certezas, as dores físicas e as que o corpo ainda não percebeu. A terceira mão traz o escuro, o estufamento, o incompreensível. As duas criaturinhas tateavam naquele momento, sem o saber, altitudes nunca respiradas, sentadas sob a sombra da pedra.
De súbito, um ruído rasgou a barriga do céu sobre eles, soterrando-os com uma infinidade de formas estranhas, repletas de cores. Cada vez que uma delas tocava o chão, um som inaudito surgia. As criaturas olharam-se com espanto, enroladas às cordas vocais.
Então, os olhos tornaram-se pouco. Agora, para cada tentativa de se expressar correspondia um ruído. Gritaram seus estômagos o bem e o mal, minúsculas e maiúsculas, aquelas letras despencando do firmamento, cores furtando a sutileza da comunicação.
Eles, enfim, conheceram-se ― após o verdadeiro pecado original.

Disse

― Bem, se é o caso, e se você quer que’u entenda alguma coisa disso tudo, é melhor então que você mesmo faça.
― Engana-se. Já falei antes da maldita banana e vou explicar tudo de novo, porque é por demais necessário que o senhor seja o autor. Preciso que seja, simplesmente porque é o melhor.
― Pois então...
―Veja, o senhor vai pegar uma banana... Mas observe! Tem que ser verde, veja lá, hein?
― ...
― Bom, o senhor vai descascar a banana e vai retirar, com muito cuidado, aqueles fiapinhos que ficam na casca. Preciso que ela esteja perfeita...
― Até aí tudo bem. Mas o que você quer, afinal?
― Escute, criatura! O senhor terá que pôr a casca numa superfície plana e branca, para que ela fique bem visível. E não se esqueça da luz! Tem que haver muita luz!
― ...
― Não se preocupe, senhor, eu pago bem...
― Mas não se trata disso! A questão é que nunca fiz um quadro de uma casca de banana antes, não é um motivo comum à minha obra. Nem mesmo gosto de natureza-morta. Alem do quê, a casca da banana escurece logo em contato com o ar, e você disse que quer que o trabalho fique o mais realista possível...
― Sim, por isso ela tem que estar verde quando o senhor for começar a pintar. Para que ela esteja madura durante o processo.
― E a proporção? Eu poderia retratá-la num tamanho diferente? Ou é preciso que seja do tamanho natural? É preciso?
― É preciso.
― ...
― ...
― Então está bem, aceito a encomenda... Mas vou apenas fazer o que você disse.

(...)

― Olá, espero não estar incomodando o senhor...
― Neste horário, eu apenas almoço.
― Ótimo. Como vai o trabalho? O senhor disse que esta tarde estaria pronto.
― Sim, sim, estará pronto esta tarde, rapaz. Mas me diga, para que toda esta pressa?
― É que necessito terminar logo com tudo isso. O senhor sabe, é um tormento, é um tormento...
― Não, na verdade não sei qual a urgência em ter um retrato de uma casca de banana escurecida.
― Olhe, apenas finalize. Como já o informei, amanhã vamos expor todos os seus trabalhos na minha galeria. Já cuidei da divulgação, paguei pelos anúncios e matérias em jornais, revistas e televisão. O senhor verá a razão da minha pressa. É algo que não posso me privar de fazer, tampouco posso aguardar mais tempo.
― Está certo, está certo, já disse que até o fim da tarde estará pronto. Você sabe, no entanto, que não me agrada essa idéia de pôr o quadro da casca de banana com tanto destaque. Tenho quadros muito melhores. Veja, o senhor poderia...
― Basta! Não discutirei isso novamente com o senhor. O quadro da banana terá lugar especial e está acabado.
― Preciso assiná-lo?
― Se quiser. Na verdade, isto pouco muito me importa. O que desejo é apenas que o quadro fique o mais realista possível. Nós o colocaremos no melhor ponto da galeria, numa altura específica, que mostrarei amanhã, e aguardaremos as pessoas. Muitas virão, estou certo.
― Então, deixe-me voltar ao trabalho...
― Mas o senhor não estava almoçando?
― Com o tempo, tudo esfria, rapaz.
― Nem tudo, meu senhor, nem tudo...

(...)

― Cá estamos, afinal... Viu como posicionei o quadro?
― Sim, mas não entendi porque você o pôs no chão. Ele é pequeno e ninguém verá. Parece-me ao menos um contra-senso, depois de tanto alarde e preocupação.
― Ora, mas é justamente por me preocupar com a posição do quadro que o pus ali onde está. Venha, vamos nos aproximar.
― Olhe, o fato é que não gosto de exposições, muito menos do meu próprio trabalho, pois todos me dirigem a palavra. Além do mais, há todo esse ruído de saltos altos, bobagens e dentes em taças.
― Bobagens é o senhor quem as diz... Espere! É ela! Vê aquela moça elegante, a de echarpe púrpura?
― Sim, o que tem ela?
― Vamos, homem, esconda-se aqui comigo! Olhe, o senhor já vai entender tudo, já vai saber porque lhe encomendei o quadro.
― Não entendo, por que temos que nos esconder? Afinal, é a exposição dos meus quadros, todos sabem que os pintei... E todos têm conhecimento de que é você que está promovendo este evento, logo, sabem que estamos aqui.
― Mas não se trata disso. Vou lhe explicar a situação: a moça da echarpe púrpura chama-se Verna. Ela é proprietária de uma importante editora na cidade onde moro.
― Mas ela é tão jovem...
― Não a subestime, meu senhor! Ela é uma cobra. Saiba que, a exemplo do senhor, sou também artista: escrevo contos. Acontece que enviei para a apreciação daquela senhorita um livro de contos de minha autoria...
― Presumo que ela não gostou e, por isso, não o editou, daí a sua raiva.
― Calma, não torne as coisas tão simples. O fato é que, sim, ela rejeitou meu livro e não o quis publicar. Porém, fez isso porque, coincidentemente, a personagem de dois dos meus contos usava uma echarpe. A questão é que eu desconhecia a mania que esta mulher possui de usar echarpes.
― Logo, ela se reconheceu desconfortavelmente nas personagens e não gostou da associação.
― Exato. Por alguma razão, a partir daquele dia eu fiquei completamente desestimulado a escrever, perdi o gosto pelas palavras... E elas, o sentido pra mim.
― Bem, de qualquer modo não entendo onde entram as bananas...
― ...
― E então?
― Olhe! Olhe! Ela está passando perto do quadro!
― Mas, assim como todo mundo, não o está enxergando.. Aonde você quer chegar, afinal?
― ...
― !
―Caiu! Caiu!
― ?!
― Consegui!
― Mas... Por que ela caiu? Como ela foi escorregar? É apenas um quadro.
― Meu senhor, a palavra está morta... Mas não subestime ainda o poder das imagens.

Pênis de tigre

Eu, na verdade, tenho as costas deformadas de tal modo que quem as vê à distância pensa num pente, ou num pênis de tigre. Minha verdade é, principalmente, enrolada em cordas velhas e trapos de tecido, é uma claridade sob este emaranhado de coisas. Vale ressaltar, num breve momento em que o interesse em me fazer entender exige seu lugar, que não falo aqui de prisões, complexos ou necessidades. Não há em mim cordas metafóricas. E é também um tanto mais do que mera sensação ― sou curvado e enrolado em cordas, a dor é apenas assessória.
As vértebras, já tão amaldiçoadas pela cada vez mais freqüente insônia, têm apenas o desejo imperioso de me pôr constantemente a par do rumo inexorável do corpo. Elas me puxam em gancho para baixo, dizendo que ali está o futuro lar. Inútil é tentar não as ouvir. Apenas por lealdade minhas costas se deformam, fiéis a mim.
Como creio na expressividade das coisas sem boca, independente do juízo humano acerca delas, as cordas também me falam; porém de coisas mais longas, conforme é adequado a seu formato.

Uma lápide para Seu Dejair Coelho

Perguntou-me o nome. Uma audácia, sem dúvida. Pus sobre minha fronte todo o peso que consegui reunir e lhe disse:
― Veja bem, o que você realmente quer saber? Eu posso, desse seu questionamento, retirar duas interpretações bastante distintas entre si, que exigem respostas tão diferentes quanto específicas. Primeiramente, a mais usual: você poderia estar me perguntando o nome, o que, neste caso, envolveria apenas uma questão prática: bastaria a mim lhe responder. No entanto, seguindo uma segunda interpretação, uma vez sabendo meu nome, você adquiriria o poder de me condensar em uma só palavra. Entende? Não posso permitir isso. Portanto, devo-lhe responder que meu nome foi, há certo tempo inclusive, sepultado sob um de meus pré-molares.

Rasgo nas costas

Penteava a barba, paciente, na fila do pão. Para aquela noite, decidira levar algumas fatias de presunto defumado e uma garrafa de suco de uva. Talvez um pote de azeitona. No balcão, uma atendente gentil e de queixo enferrujado embalava pães e sorrisos para os clientes, um após o outro. As sobrancelhas e a barba espessas cobriam grande parte do rosto do homem, nuvens sobre a expressão sempre crispada. Era o último da fila.
Com as mãos nos bolsos da calça, esperava, tendo à frente quatro pessoas ainda. Havia poeira sobre os olhos, uma insônia que há tempos não se despedia. Os ombros tortos resistiam ao peso da mochila, com pontas de papéis escapando pela abertura na parte superior. Quatro pessoas ainda. A melhor opção era, sem dúvida, pôr o casaco.
No homem, só os olhos falavam. A boca apenas ruminava bigode e paciência. Para eventuais perguntas, endereçava sempre um leve aceno de cabeça, quase simpático, olhava o relógio e saía. Fazer as compras não constituía um problema. Há anos comprava sempre as mesmas coisas. A atendente da padaria já o sabia – três pães, presunto defumado, suco de uva e, claro, um pote de azeitonas. Enfim, era sua vez de ser atendido.
Pegou as sacolas com as compras e voltou ao apartamento, a duas quadras de distância. Permaneceu alguns minutos com as luzes apagadas, folheando um jornal no chão da sala sem móveis. Preenchiam o ar Pierrot Lunaire, de Stravinsky, e uma fumaça azulada. Por debaixo da porta, um envelope escorregou vinte e um centímetros, recebeu um olhar de soslaio e lá ficou. Três cigarros depois, o homem pegou na cozinha o suco de uva e tornou a sentar no chão, tendo a janela por companhia.
Ele era murado. Cada pêlo, cada gesto, a pele inteira, tudo estava ali para que permanecesse apartado do resto. Entendia como resto grande parte da longa construção humana – os lares, as fábricas, os crediários, as antenas parabólicas, o suposto exotismo de lugares e rostos, os colares de pérolas, a gasolina, esses grandes orgulhos da história da nossa civilização. Um grande fardo tudo isso, uma grande pena. E, então, sentiu uma pequena coceira no alto das costas.
Descansou calmamente o cigarro no chão, para dar cabo daquele pequeno incômodo. As unhas compridas tornariam fácil a tarefa. Mas não. A coceira se avolumava à medida que o homem arranhava as costas, avermelhadas e sardentas. A despeito do frio, tirou o casaco e a camisa e empregou mais força nos movimentos da mão. Não adiantou. Já aflito, enrijeceu o dedo indicador e forçou com a unha a pele, que, então, rompeu.
Estranhamente, parecia que a titilação o invadia, penetrando no pequeno corte feito à unha, como se pretendesse escapar pelas costas. Pausa. Expiração. Cavou a ferida com o dedo, num impulso tenso e controlado – até conseguir, de súbito, sufocar o prurido. Em seu lugar ficou uma ardência.
O cigarro riscava uma linha no chão de madeira, silenciosamente. Então, um ruído agudo violentou-lhe os ouvidos. Do corte, como uma boca entreaberta, jorrou uma cidade inteira, luzes e construções, asfalto e noites mal-dormidas, inundando a sala e extinguindo a fumaça. Ressoaram as batidas de inúmeros corações, sem compasso.
Com a barba úmida, o homem não podia acreditar, a cabeça pesando, precipitada nuvem. Não podia acreditar em todo aquele volume e movimento, nos automóveis estacionados, nas latas de lixo. Aos seus pés, alguns tijolos partidos, seu sangue, a ausência da proteção erigida por anos. E o cheiro! Com que dificuldade aspirava o odor da própria excrescência, espalhada por cada rua que se abria e esticava, por cada esquina e passo.
Ficou ali, imóvel, pois percebeu que havia alguma força em operação. A alguns metros, ouviu um grito de mulher, de mãe. Curvada sobre uma criança com ferimentos no rosto e nos braços, ela gritava para o alto, querendo ser ouvida. Dizia, desesperada, que tinha nas mãos a carne de Deus. O homem observou atonitamente o momento em que ela foi engolida pela janela de uma repartição pública.
Era preciso não procurar sentido naquilo tudo, era preciso não entender. Havia, definitivamente, alguma força em operação. Um hálito que percorria os espaços e desmembrava as pessoas, que as comprimia entre os dentes para achatá-las, para que pudessem caber nos escritórios, nos templos, nas filas dos supermercados.
Notou, então, o óbvio – existir do modo como o fazem as pessoas implica um certo grau de mutilação. A brisa que nos acaricia é constituída desse ar de lâmina, nós criamos nossa dor. Inútil era tentar não perceber que toda essa violência – era cotidiana. Nada tinha de absurdo. Ao contrário, sempre estivera ali, numa compressão surda e inextinguível, furtando o que há de real na vida e deixando em seu lugar um espantalho, uma dúvida.
Não havia mais lugar para o homem naquela inundação, as pessoas em seus aquários: casas, apartamentos, carros, salões de beleza, roupas de baixo. Sem lugar. O espaço onde se encontrava agora – sem qualquer localização – era seu estado inominável, mudo e solitário, sem cor ou aspereza ou felicidade almejada, um vão despojado de possibilidades, de planos, de crenças ou racionalização. É o que o abraça, o que lhe resta.