sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Rasgo nas costas

Penteava a barba, paciente, na fila do pão. Para aquela noite, decidira levar algumas fatias de presunto defumado e uma garrafa de suco de uva. Talvez um pote de azeitona. No balcão, uma atendente gentil e de queixo enferrujado embalava pães e sorrisos para os clientes, um após o outro. As sobrancelhas e a barba espessas cobriam grande parte do rosto do homem, nuvens sobre a expressão sempre crispada. Era o último da fila.
Com as mãos nos bolsos da calça, esperava, tendo à frente quatro pessoas ainda. Havia poeira sobre os olhos, uma insônia que há tempos não se despedia. Os ombros tortos resistiam ao peso da mochila, com pontas de papéis escapando pela abertura na parte superior. Quatro pessoas ainda. A melhor opção era, sem dúvida, pôr o casaco.
No homem, só os olhos falavam. A boca apenas ruminava bigode e paciência. Para eventuais perguntas, endereçava sempre um leve aceno de cabeça, quase simpático, olhava o relógio e saía. Fazer as compras não constituía um problema. Há anos comprava sempre as mesmas coisas. A atendente da padaria já o sabia – três pães, presunto defumado, suco de uva e, claro, um pote de azeitonas. Enfim, era sua vez de ser atendido.
Pegou as sacolas com as compras e voltou ao apartamento, a duas quadras de distância. Permaneceu alguns minutos com as luzes apagadas, folheando um jornal no chão da sala sem móveis. Preenchiam o ar Pierrot Lunaire, de Stravinsky, e uma fumaça azulada. Por debaixo da porta, um envelope escorregou vinte e um centímetros, recebeu um olhar de soslaio e lá ficou. Três cigarros depois, o homem pegou na cozinha o suco de uva e tornou a sentar no chão, tendo a janela por companhia.
Ele era murado. Cada pêlo, cada gesto, a pele inteira, tudo estava ali para que permanecesse apartado do resto. Entendia como resto grande parte da longa construção humana – os lares, as fábricas, os crediários, as antenas parabólicas, o suposto exotismo de lugares e rostos, os colares de pérolas, a gasolina, esses grandes orgulhos da história da nossa civilização. Um grande fardo tudo isso, uma grande pena. E, então, sentiu uma pequena coceira no alto das costas.
Descansou calmamente o cigarro no chão, para dar cabo daquele pequeno incômodo. As unhas compridas tornariam fácil a tarefa. Mas não. A coceira se avolumava à medida que o homem arranhava as costas, avermelhadas e sardentas. A despeito do frio, tirou o casaco e a camisa e empregou mais força nos movimentos da mão. Não adiantou. Já aflito, enrijeceu o dedo indicador e forçou com a unha a pele, que, então, rompeu.
Estranhamente, parecia que a titilação o invadia, penetrando no pequeno corte feito à unha, como se pretendesse escapar pelas costas. Pausa. Expiração. Cavou a ferida com o dedo, num impulso tenso e controlado – até conseguir, de súbito, sufocar o prurido. Em seu lugar ficou uma ardência.
O cigarro riscava uma linha no chão de madeira, silenciosamente. Então, um ruído agudo violentou-lhe os ouvidos. Do corte, como uma boca entreaberta, jorrou uma cidade inteira, luzes e construções, asfalto e noites mal-dormidas, inundando a sala e extinguindo a fumaça. Ressoaram as batidas de inúmeros corações, sem compasso.
Com a barba úmida, o homem não podia acreditar, a cabeça pesando, precipitada nuvem. Não podia acreditar em todo aquele volume e movimento, nos automóveis estacionados, nas latas de lixo. Aos seus pés, alguns tijolos partidos, seu sangue, a ausência da proteção erigida por anos. E o cheiro! Com que dificuldade aspirava o odor da própria excrescência, espalhada por cada rua que se abria e esticava, por cada esquina e passo.
Ficou ali, imóvel, pois percebeu que havia alguma força em operação. A alguns metros, ouviu um grito de mulher, de mãe. Curvada sobre uma criança com ferimentos no rosto e nos braços, ela gritava para o alto, querendo ser ouvida. Dizia, desesperada, que tinha nas mãos a carne de Deus. O homem observou atonitamente o momento em que ela foi engolida pela janela de uma repartição pública.
Era preciso não procurar sentido naquilo tudo, era preciso não entender. Havia, definitivamente, alguma força em operação. Um hálito que percorria os espaços e desmembrava as pessoas, que as comprimia entre os dentes para achatá-las, para que pudessem caber nos escritórios, nos templos, nas filas dos supermercados.
Notou, então, o óbvio – existir do modo como o fazem as pessoas implica um certo grau de mutilação. A brisa que nos acaricia é constituída desse ar de lâmina, nós criamos nossa dor. Inútil era tentar não perceber que toda essa violência – era cotidiana. Nada tinha de absurdo. Ao contrário, sempre estivera ali, numa compressão surda e inextinguível, furtando o que há de real na vida e deixando em seu lugar um espantalho, uma dúvida.
Não havia mais lugar para o homem naquela inundação, as pessoas em seus aquários: casas, apartamentos, carros, salões de beleza, roupas de baixo. Sem lugar. O espaço onde se encontrava agora – sem qualquer localização – era seu estado inominável, mudo e solitário, sem cor ou aspereza ou felicidade almejada, um vão despojado de possibilidades, de planos, de crenças ou racionalização. É o que o abraça, o que lhe resta.

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