Sentaram-se as criaturas sob a sombra muda da pedra. Isso porque, até então, não se havia compreendido e classificado os sons. Olharam-se com curiosidade, pêlos e escamas, vasculhando sem timidez cada recorte da pele e ângulos e cores e cheiros. Acabaram, respeitosamente, amando-se com a visão.
Dois seres conhecedores profundos da violência dos gestos e do olhar. Toda a natureza é consciente da mão tripla dos olhos: uma mão leva a ternura, a retidão, o peso da verdade e o medo; a outra carrega a fúria, as paixões, a tempestade que se anuncia na queda da folha, as certezas, as dores físicas e as que o corpo ainda não percebeu. A terceira mão traz o escuro, o estufamento, o incompreensível. As duas criaturinhas tateavam naquele momento, sem o saber, altitudes nunca respiradas, sentadas sob a sombra da pedra.
De súbito, um ruído rasgou a barriga do céu sobre eles, soterrando-os com uma infinidade de formas estranhas, repletas de cores. Cada vez que uma delas tocava o chão, um som inaudito surgia. As criaturas olharam-se com espanto, enroladas às cordas vocais.
Então, os olhos tornaram-se pouco. Agora, para cada tentativa de se expressar correspondia um ruído. Gritaram seus estômagos o bem e o mal, minúsculas e maiúsculas, aquelas letras despencando do firmamento, cores furtando a sutileza da comunicação.
Eles, enfim, conheceram-se ― após o verdadeiro pecado original.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
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