sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Disse

― Bem, se é o caso, e se você quer que’u entenda alguma coisa disso tudo, é melhor então que você mesmo faça.
― Engana-se. Já falei antes da maldita banana e vou explicar tudo de novo, porque é por demais necessário que o senhor seja o autor. Preciso que seja, simplesmente porque é o melhor.
― Pois então...
―Veja, o senhor vai pegar uma banana... Mas observe! Tem que ser verde, veja lá, hein?
― ...
― Bom, o senhor vai descascar a banana e vai retirar, com muito cuidado, aqueles fiapinhos que ficam na casca. Preciso que ela esteja perfeita...
― Até aí tudo bem. Mas o que você quer, afinal?
― Escute, criatura! O senhor terá que pôr a casca numa superfície plana e branca, para que ela fique bem visível. E não se esqueça da luz! Tem que haver muita luz!
― ...
― Não se preocupe, senhor, eu pago bem...
― Mas não se trata disso! A questão é que nunca fiz um quadro de uma casca de banana antes, não é um motivo comum à minha obra. Nem mesmo gosto de natureza-morta. Alem do quê, a casca da banana escurece logo em contato com o ar, e você disse que quer que o trabalho fique o mais realista possível...
― Sim, por isso ela tem que estar verde quando o senhor for começar a pintar. Para que ela esteja madura durante o processo.
― E a proporção? Eu poderia retratá-la num tamanho diferente? Ou é preciso que seja do tamanho natural? É preciso?
― É preciso.
― ...
― ...
― Então está bem, aceito a encomenda... Mas vou apenas fazer o que você disse.

(...)

― Olá, espero não estar incomodando o senhor...
― Neste horário, eu apenas almoço.
― Ótimo. Como vai o trabalho? O senhor disse que esta tarde estaria pronto.
― Sim, sim, estará pronto esta tarde, rapaz. Mas me diga, para que toda esta pressa?
― É que necessito terminar logo com tudo isso. O senhor sabe, é um tormento, é um tormento...
― Não, na verdade não sei qual a urgência em ter um retrato de uma casca de banana escurecida.
― Olhe, apenas finalize. Como já o informei, amanhã vamos expor todos os seus trabalhos na minha galeria. Já cuidei da divulgação, paguei pelos anúncios e matérias em jornais, revistas e televisão. O senhor verá a razão da minha pressa. É algo que não posso me privar de fazer, tampouco posso aguardar mais tempo.
― Está certo, está certo, já disse que até o fim da tarde estará pronto. Você sabe, no entanto, que não me agrada essa idéia de pôr o quadro da casca de banana com tanto destaque. Tenho quadros muito melhores. Veja, o senhor poderia...
― Basta! Não discutirei isso novamente com o senhor. O quadro da banana terá lugar especial e está acabado.
― Preciso assiná-lo?
― Se quiser. Na verdade, isto pouco muito me importa. O que desejo é apenas que o quadro fique o mais realista possível. Nós o colocaremos no melhor ponto da galeria, numa altura específica, que mostrarei amanhã, e aguardaremos as pessoas. Muitas virão, estou certo.
― Então, deixe-me voltar ao trabalho...
― Mas o senhor não estava almoçando?
― Com o tempo, tudo esfria, rapaz.
― Nem tudo, meu senhor, nem tudo...

(...)

― Cá estamos, afinal... Viu como posicionei o quadro?
― Sim, mas não entendi porque você o pôs no chão. Ele é pequeno e ninguém verá. Parece-me ao menos um contra-senso, depois de tanto alarde e preocupação.
― Ora, mas é justamente por me preocupar com a posição do quadro que o pus ali onde está. Venha, vamos nos aproximar.
― Olhe, o fato é que não gosto de exposições, muito menos do meu próprio trabalho, pois todos me dirigem a palavra. Além do mais, há todo esse ruído de saltos altos, bobagens e dentes em taças.
― Bobagens é o senhor quem as diz... Espere! É ela! Vê aquela moça elegante, a de echarpe púrpura?
― Sim, o que tem ela?
― Vamos, homem, esconda-se aqui comigo! Olhe, o senhor já vai entender tudo, já vai saber porque lhe encomendei o quadro.
― Não entendo, por que temos que nos esconder? Afinal, é a exposição dos meus quadros, todos sabem que os pintei... E todos têm conhecimento de que é você que está promovendo este evento, logo, sabem que estamos aqui.
― Mas não se trata disso. Vou lhe explicar a situação: a moça da echarpe púrpura chama-se Verna. Ela é proprietária de uma importante editora na cidade onde moro.
― Mas ela é tão jovem...
― Não a subestime, meu senhor! Ela é uma cobra. Saiba que, a exemplo do senhor, sou também artista: escrevo contos. Acontece que enviei para a apreciação daquela senhorita um livro de contos de minha autoria...
― Presumo que ela não gostou e, por isso, não o editou, daí a sua raiva.
― Calma, não torne as coisas tão simples. O fato é que, sim, ela rejeitou meu livro e não o quis publicar. Porém, fez isso porque, coincidentemente, a personagem de dois dos meus contos usava uma echarpe. A questão é que eu desconhecia a mania que esta mulher possui de usar echarpes.
― Logo, ela se reconheceu desconfortavelmente nas personagens e não gostou da associação.
― Exato. Por alguma razão, a partir daquele dia eu fiquei completamente desestimulado a escrever, perdi o gosto pelas palavras... E elas, o sentido pra mim.
― Bem, de qualquer modo não entendo onde entram as bananas...
― ...
― E então?
― Olhe! Olhe! Ela está passando perto do quadro!
― Mas, assim como todo mundo, não o está enxergando.. Aonde você quer chegar, afinal?
― ...
― !
―Caiu! Caiu!
― ?!
― Consegui!
― Mas... Por que ela caiu? Como ela foi escorregar? É apenas um quadro.
― Meu senhor, a palavra está morta... Mas não subestime ainda o poder das imagens.

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